domingo, 15 de novembro de 2009

Amarilis

O nome de flor diz muito sobre esta mulher que marcou minha vida.
Conheci Amarilis quando tinha pouco mais de 17 anos, foi na festa de aniversário de uma amiga em comum e nesta festa eu a ví pela primeira vez. O ano devia ser 1975.
Foi alto estonteante, digno de uma cena de filme.
Eu já estava na festa quando ela chegou, lembro bem como foi a cena, porque tudo se congelou naquele momento e por alguns instantes eu a vi somente em câmera lenta e não sei se neste momento tocava a musica "48 Crash" da Susy 4, mas esta música está diretamente associada a este primeiro encontro.
E foi uma noite mágica, ficamos juntos praticamente todo o tempo, teve um momento em que ela saiu e trocou seu vestido de noite, que tinha como enfeite uma enorme borboleta (prateada ou dourada, não tenho lembranças tão perfeitas) por um outro vestido mais simples e ficou ainda mais linda. Me apaixonei por ela instantaneamente e ela por mim.
Vivemos dias mágicos depois deste encontro, posso lembrar especialmente uma vez em que fomos assistir ao filme "Dio come ti amo" com a Gigliola Cinqueti e voltamos para casa debaixo de uma chuva de verão, de mãos dadas, sorrindo e felizes. Lembro também quando tentamos nos beijar na boca pela primeira vez e ao invés de fazer isso ficamos os dois uivando para uma lua cheia magnifica... não me lembro de ter beijado Amarilis na boca.
Não saberia precisar se essa mágica durou 1 mês, 2 meses ou mais... mas um dia ela simplesmente viajou para os EUA, participando de um programa de intercâmbio cultural, do seu curso de inglês e lá ficaria por 6 meses.
Nestes 6 meses pensei em lhe escrever pelo menos uma carta por dia, mas não recebia as respostas na mesma frequência, então aos poucos fui desistindo de escrever diariamente e quando ela voltou eu me sentia magoado, era muito novo para entender que ela tinha mais prioridades lá.
No dia em que voltou eu estava entre a multidão de amigos que foi espera-la no aeroporto, mas nem tive chance de chegar perto dela e nossos próximos encontros foram marcados mais por desencontros, e por cobranças (especialmente de minha parte) o amor começava a fraquejar.
Mesmo assim tivemos ainda momentos de pura felicidade, festas em que fomos juntos e dançamos coladinhos ao som de músicas que ficaram no passado, algumas, quando ouvidas evocam estes momentos, eles simplesmente afloram, indicando que estão bem guardados e preservados em algum lugar de minha mente.
Enquanto ela esteve nos EUA eu fiz um complicado esquema onde consegui uma cópia de uma foto dela que ficava exposta na vitrine de um famoso fotógrafo da cidade de Ribeirão Preto, SP, onde tudo isso aconteceu.
É a foto que ilustra este texto, uma foto pela qual eu era apaixonado.
Fui no fotógrafo e inventei uma história, de que estava participando de uma gincana na escola e precisava de uma foto de uma menina segurando uma flor, que deveria levar lá rapidamente e devolveria em seguida. Devo ter convencido, pois ele acabou liberando a foto, que levei imediatamente para outro fotografo e pedi para ser reproduzida... o que eu não sabia é que os fotógrafos eram parentes e o segundo fotógrafo reconheceu a foto, mas também acabou aceitando a mesma história.
Tive que inventar tudo isso porque não queria que Amarilis soubesse o que eu pretendia fazer, ou teria pedido a foto a ela, ou a seus pais. Mas eu queria lhe fazer uma surpresa... desenhar aquela foto.
Nunca mais vi o desenho, nem sei se ficou bom ou não...mas fiz aquilo com tanto amor que mesmo que seja o pior desenho do mundo estaria impregnado de tal forma com o sentimento que quem o olhasse teria que gostar. Ela certamente gostou pois lembro que muitos anos depois encontrei com ela e me disse que o desenho ainda estava em seu quarto. Nem sei se ela ainda mantém este desenho... poderia perguntar (e vou) e talvez pedir uma foto dele para colocar aqui.
Se esse amor não tivesse ficado enfraquecido provavelmente casaria com ela e não sei qual seria esta vida alternativa, mas o amor enfraqueceu e um dia decidi fugir dele.
Como sempre fui um pouco radical, decidi fugir mesmo e decidi que ao invés de servir ao exército em Ribeirão Preto iria para o Rio, ser paraquedista e levei a sério, em janeiro de 1977 desembarcava no Rio, com uma postura típica de um jovem que sofreu sua primeira desilusão amorosa.
Fiz uma promessa de "nunca mais me apaixonar" e realmente, por algum tempo, que não sei precisar, mas provavelmente foi de mais de 1 ano passei a mentir até sobre meu nome a qualquer mulher que eu conhecesse e evitava sair com a mesma mulher mais de uma vez... embora com algumas eu tenha saído mais que isso.
Sim... a permissividade da época, o fato de estar no Rio de Janeiro me levaram a procurar apenas sexo nas mulheres que conheci nesta época e certamente meus anjos me protegeram muito bem, porque foram muitas vezes e muitas mulheres (mais ou menos uma por dia) e jamais peguei sequer uma doença venérea leve.
Essa farra foi para compensar a perda do amor e tinha data para terminar, contarei isso nos próximos amores, mas a história com Amarilis não acabou aqui.
Apesar da desilusão, Amarilis jamais saiu de meu pensamento e quando digo jamais é porque nunca saiu mesmo. Tornou-se uma amiga querida, para a qual ligava em quase todos os aniversários e procurava visitar quando vinha a Ribeirão Preto.
Em 2008, ela completou 50 anos e coincidiu de eu estar  em Ribeirão Preto nesta época. Já tinha perdido o contato com ela, mas uma série inexplicável de fatos nos uniu de novo, acho que merece ser contada e esclarecida.
Primeiro preciso definir como eu me encontrava.. tinha acabado de encerrar um relacionamento muito forte e ao mesmo tempo muito doloroso, com Cidinha, uma mulher que também marcou minha vida e estará em um dos próximos posts.
Eu estava MUITO mal mesmo, totalmente sem rumo, sem auto-estima, no fundo do poço.
Mas não tinha me entregado ainda, procurava um trabalho para tentar me distrair pois como autônomo não me sentia em condições de fazer absolutamente nada, tamanha era minha depressão.
Ao participar do processo seletivo de uma empresa passei em frente a uma outra empresa e reconheci o sobrenome do marido de Amarilis, que não vem ao caso citar, mas conhecia aquele sobrenome e ao ver na placa de uma empresa entrei lá e perguntei por ela.
Uma simpatica e desconfiada senhora me atendeu, era a cunhada de Amarilis e concordou em passar meu telefone para ela.
A partir dai nos comunicamos e fiquei sabendo que haveria uma festa dos seus 50 anos e fui convidado.
Nem pretendia ir... me sentia muito mal para ir em festas, mas era a festa de uma pessoa tão especial e além disso ela havia dito que vários amigos da juventude estariam presentes.
No dia eu estava lá e foi um dia mágico.
Na festa eu soube - dito pela própria Amarilis - que estava viúva há 6 anos e conheci seu filho, um lindo e esperto garoto de aproximadamente 11 anos (não lembro exatamente). Soube também que uma amiga em comum - que adoramos - havia feito campanha para que Amarilis me procurasse após a morte de seu marido.
Aquilo tudo mexeu muito comigo.
Mexeu com nós dois, pois naquela noite dançamos juntos e não posso dizer por ela, -que ainda é muito reservada - mas eu me senti como quando tinha 17 anos.
Durante a festa houve alguns momentos mágicos, que prefiro nem descrever, são momentos que apenas eu posso entender.
O fato é que sai desta festa pronto para ser curado do mal que me afligia, não sai totalmente curado pois algumas doenças não se cura tão rápido, mas saí dali com nova perspectiva da vida.
Por alguns dias achei que devia retomar aquele amor e investi nisso, disse a ela muito claramente, inicialmente por email, o quanto a amei por toda a vida e que estaria disponível para tentar.
Nos encontramos e conversamos sobre isso, ela disse que ficou emocionada com tudo, mas que já tinha uma vida com um rumo traçado e deixou claro que não pretendia sair dele.
Ela não me convenceu totalmente, mas decidi respeitar sua vontade e tinha dois outros fatores que contribuiram para isso, o primeiro deles é que meu coração ainda estava preso ao amor que eu nutria pela ex mais recente. O segundo foi a reação do filho da Amarilis a nossos encontros. Não farei comentários sobre isso, mas ficou claro que ele teria dificuldades em me aceitar na vida deles, conversei com ela a respeito e concordamos que seria melhor deixar como estava.
Amarilis ainda é uma doce amiga e ao escrever estas linhas - pouco mais de um ano depois da festa descrita - mantemos encontros muito casuais e eventuamente nos escrevemos. Assim que terminar este texto mandarei para ela, pois gostaria que ela lesse e aprovasse que permaneça aqui... se ela disser não eu retiro este texto.
O que o futuro trará para nós eu não sei... mas gosto de manter esse amor vivo em minhas lembranças, não esperando que renasça das cinzas, mas para que fique claro que existiu, que foi importante e marcante em minha vida e que agradeço a Deus por cada momento bom que ele me proporcionou, que superou em muito os momentos ruins que também estiveram associados a ele.
E só posso agradecer a ela também por ser quem é... uma pessoa muito especial, única e que compartilhou comigo alguns momentos de sua vida. É um presente que jamais perderei.